Psicologia animal

Por João Paulo Cunha

Sei que tem gente que não gosta de cachorro, mesmo que não entenda bem o porquê. Esse desagrado, para mim, sempre se afigura como uma contradição emocional: como alguém pode não gostar de afeto? Contudo, o assunto hoje não são os homens, pelo menos diretamente, mas os bichos.

Tenho reparado de uns tempos para cá que os cachorros ganharam outro lugar no mundo. De certa forma, se tornaram marcas, quase produtos com características distintivas. Quando eu era pequeno, lá se vão muitas décadas, havia dois gêneros, dois tamanhos e duas raças de cães. Eles eram machos ou fêmeas, grandes ou pequenos, pastor alemão ou vira-lata.
Quando surgia algum cachorro muito peculiar, não era distinguido pela raça, mas pelo nome. Assim, por causa da cadela Lassie do cinema, todos os cães parecidos eram “lassies” (hoje são collies). A situação agora é bem diferente, os animais ostentam sua raça como uma grife, o que não teria nada demais, não fosse o fato do olhar humano tradicionalmente racista. Esticamos o hediondo comportamento discriminatório até para os animais.
Tenho três amigos queridos, todos gente boa, cada um com seu cão. Não vou falar das pessoas, e sim dos bichos. Os cachorros explicam os homens.
O primeiro deles tem um pit-bull, Thor. É um cachorro inescrutável. Não se sabe do que é capaz. Seus olhos não dizem nada. Sua fama o precede. Para entrar na casa do meu amigo, é preciso uma operação de encarceramento. Thor vai para a jaula e as visitas ficam presas do lado de fora. O espaço é dele.
Quem tem um cachorro assim gosta de dizer que ele é manso e confiável, que os instintos fazem dele a fera que é, mas que é incapaz de fazer mal aos donos. Para cachorros dessa natureza, todos são inimigos até que provem o contrário. Usando meu manual de psicologia mirim, meu amigo quer ser o macho-alfa que não é na vida real. Thor é a projeção dos seus desejos.
O outro chegado, na verdade uma amiga queridíssima, tem uma vira-lata, Bia, que ela resgatou de um abrigo para cães abandonados. Bia parece um tamanduá. Ela recebe as pessoas em casa e faz questão de, além da afetividade, mostrar que tem liberdade para frequentar todos os cômodos e móveis. Está sempre disposta a fazer amizade, mas mantém certa reserva. Ela não esquece que sofreu na infância, mas não tem rancor.
Para conviver com Bia é preciso inverter as expectativas. Ninguém é dono de um ser que tinha tudo para dar errado na vida. A escolha é sempre dela. Ao adotar sua dona, Bia certamente tinha em mente o tipo de casa que queria viver. Era fundamental que não houvesse canil, que a alimentação fosse balanceada entre ração e pedaços de carne de churrasco. Para viver com Bia é preciso gostar de gente, churrasco e cerveja.
O terceiro amigo tem um cachorro gordo e lento. Ele parece que faz parte do movimento Slow Food, não tem pressa em ter prazer. O animal se chama Sari, tem pelos longos e, a qualquer estímulo, parece que sorri, como um Buda satisfeito. Meu amigo, quando levou o cão para casa, havia perdido a pouco seu outro cachorro querido, que também era obeso, vagaroso e feliz. Além de rir, Sari tem outras habilidades humanas, como a capacidade se entediar com conversas fiadas.
Quem vive com animais do tipo de Sari precisa ter um comportamento estoico e epicurista ao mesmo tempo. Precisa ser consciente das dores, mas saber que elas não são uma perseguição pessoal, apenas existem e vão passar, mais cedo ou mais tarde. Além disso, procuram a satisfação em cada pequeno ato: um passeio, água fresca e um carinho na barriga. Não há muito mais a esperar do destino.
Meus amigos são o melhor que tenho na vida, e por isso presto tanta atenção em seus animais de estimação. Cada cão, ao seu jeito, me ensinou um pouco sobre seus donos. Os animais são menos insondáveis que as pessoas, mas nem por isso mais transparentes. Eles também carregam seus mistérios, dentre eles, o maior de todos: o que será que eles pensam de nós?
Anúncios

Uma resposta em “Psicologia animal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s