Cachorros levam alegria ao lar de idosos em BH

Cães abandonados são acolhidos por psicólogos e usados em terapia Idosos carentes são beneficiados ao terem contato com os animais  

 A aposentada Germana retribui com um abraço o carinho que recebe do gigante Baruck, que foi largado quando era filhote (FOTOS: PAULO FILGUEIRAS/EM/D.A PRESS )

Suja, maltrapilha e amedrontada, Juju encontrava refúgio debaixo dos carros estacionados na Savassi. Chegou a vagar por bairros da Região Centro-Sul de Belo Horizonte, carregando o peso da gravidez e de uma doença no fígado, até encontrar, há três anos, os braços acolhedores do psicólogo Leonardo Curi, de 33 anos. Desde então, a vira-lata se despediu da trajetória de abandono – vivida pelos cerca de 28 mil cachorros que moram nas sarjetas da capital – para trilhar um caminho de doação. Junto dos berneses Baruck e Hanna e da golden retriever Olly, que também trazem a marca da rejeição, ela forma um time de cães terapeutas de primeira linhagem. Longe das ruas e dos maus-tratos, os animais batem ponto todos os sábados no Lar de Idosos Clotilde Martins, no Bairro Salgado Filho, na Região Oeste de BH, e cumprem a admirável missão de trazer alegria e afastar o sofrimento de quem também já viveu na pele o incômodo fardo da solidão.
É com um beijo na ponta do focinho gelado de Baruck que a aposentada Maria Germana da Silva, de 68, moradora do asilo há um ano, agradece ao grandalhão pelo carinho. “Gostoso da Germana. Ele é um amor, quando não vem aqui tudo fica ruim”, diz, em tom afetuoso. A amizade nasceu assim que o cão chegou por lá, em agosto, levado pelo grupo de cinoterapia Pró-Idoso, de voluntários do Minas Tênis Clube (MTC). Por meio dos cachorros, os cinoterapeutas, entre eles Leonardo, dono da vira-lata e dos berneses, criam um ambiente para estimular o corpo e a mente dos idosos. No entanto, além de terapia, as sessões no lar Clotilde Martins se revelaram um momento de confidências entre quem conta com histórias de vida semelhantes.

Numa carta dirigida a Baruck, Germana não hesitou em escrever, com palavras simples e sinceras: “Baru, como foi bom conhecer você. Sua (história) foi igual à minha, fui abandonado quando nasci (sic)”. Germana foi desprezada ainda bebê e, depois da morte dos filhos, voltou a experimentar a solidão, até ser encaminhada ao lar de idosos. “Fui rejeitada pela minha mãe, me acharam na lata de lixo. Não tenho ninguém, e agora eles são a minha família”, diz. Com Baruck e a cadela Hanna, não foi diferente. Avisado por uma amiga protetora de animais e diante da necessidade de treinar cães para a cinoterapia, Leonardo encontrou, em junho de 2009, o casal de berneses jogados num quartinho de despejo de um prédio.

Terapia em grupo, diversão, sorrisos e um animal fazendo parte da festa - Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Os dois filhotes estavam com sarna, anemia e hemoparasitose, doença causada por carrapatos. “Foi uma menina que doou os dois para mim, pois não tinha condição de cuidar deles. Disse que os cães eram do namorado, mas ele sumiu”, conta. Apesar de estar desempregado e ter de arcar com o tratamento de saúde dos animais, o psicólogo não cogitou em deixar os berneses para trás. “Vi que a menina não tinha como cuidar deles e, dificilmente, cães doentes são acolhidos.” O agradecimento veio na forma de companheirismo e dedicação ao trabalho. “A impressão é que cães adotados são eternamente gratos.”

Batente

Entre esse time que deu a volta por cima do abandono, a mestiça Juju, com idade estimada de seis anos, foi a primeira a pegar no batente. Na época, Leonardo já contava com dois cães da raça golden retriever treinados para o trabalho com idosos. “Levava Juju nas sessões para passear. Mas, como ela é menor, os idosos queriam colocá-la no colo. De repente, foi entrando nas atividades e acabou se saindo a melhor de todos. Ela faz de tudo um pouco. Pula, corre”, conta Leonardo. “Ela é mais inteligente que eu”, confessa a moradora do lar Maria Sueli de Lima, de 51, que assim como Juju já passou por momentos delicados. “Apanhei muito, levei até paulada na cabeça”, conta, abraçada com a cadela.

A golden retriever Olly, adotada pela cinoterapeuta Luciana Villela, de 40, é a mais nova companheira da turma e iniciou as atividades como cadela terapeuta em agosto. Resgatada de um canil em más condições de saúde, Olly afasta o mito de que a rejeição ronda apenas os vira-latas. Luciana explica que, quando o cão de raça nasce com características que fogem do padrão, ele tende a ser rejeitado. “Muitas famílias também colocam o animal para fora de casa quando ele está com alguma doença”, acrescenta Leonardo. “Ao ver a Olly, fiquei apaixonada, mas triste. Ela estava com otite grave, hipotireoidismo, carrapato e muito traumatizada”, confessa Luciana.

Agora, a realidade de Olly é outra. No asilo, ela é só mimos e até já ganhou da aposentada Leosina de Souza Rocha, de 83, um enfeite para pôr no pescoço. “A Olly me dá carinho.” Solteira e com família no Norte de Minas, Leosina diz saber o que é se sentir sozinha. “Era muito triste aqui.” A assistente social do asilo, Irene Reis Rezende, explica que boa parte dos 34 moradores da casa vem de uma trajetória sofrida. “Temos muitos casos de abandono e maus-tratos pela família.”

Cachorros levam alegria a um lar de idosos de BH - Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Segundo a cuidadora de idosos Ivone Pereira Guimarães Costa, a chegada dos animais deu outro clima à instituição, mantida pela Sociedade São Vicente de Paulo. “E quanto mais carentes são, mais gostam dos cachorros.” Quanto aos cães, Leonardo ressalta que eles atendem um protocolo de saúde rígido para participar da cinoterapia e enfatiza: “Parece que eles já nasceram para isso. O abandono também faz com que fiquem mais próximos.”

Como adotar

Em geral, entidades que trabalham com adoção de animais não cobram taxa. Cada uma tem procedimento particular ao encaminhar o animal ao interessado.

Cão Viver
Feira de adoção aos sábados, das 10h às 16h
Rua 1º de Maio, 165, Bairro Braúnas (31) 3397-8560


SOS Bichos

Não tem canil, mas faz o contato entre interessados em doar e adotar animais
http://www.sosbichos.com.br

Sociedade Mineira Protetora dos Animais
Rua Jaguariba, 66, Bairro Guarani (31) 3433-0900

Centro de Controle de Zoonoses (CCZ)

 

De segunda a sexta-feira, das 8h às 17h (31) 3277-7411

Rua Edna Quintel, 174, Bairro São Bernardo

Anúncios

3 respostas em “Cachorros levam alegria ao lar de idosos em BH

  1. Oi achei muito interessante o trabalho feito no Lar com os cães. Sou estudante de terapia ocupacional e gostaria de saber se você tem informações sobre essas visitas , e se eu posso participar de alguma. Agradeço

    Curtir

    • Olá Bruna!
      Você pode tentar um contato no Minas Tenis Clube e pedir informações a respeito do grupo de voluntários formado por eles.
      Além disso, algumas entidades podem também te passar mais informações. São elas:
      – Cão Viver: 3397-8560 – http://www.caoviver.com.br
      – Projeto Cinoterapia: Ana Carolina – 3371-3772

      Espero ter ajudado.

      Abraços.
      Gustavo Teixeira

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s