Que nome darei a meu cão?

Recebi um email da minha esposa com uma reportagem bem interessante e vou compartilhá-la com vocês. Espero que gostem…

Por Ayrton Mugnaini Jr., especial para o Yahoo! Brasil

Era uma vez um menino chamado Luís Maurício, que cresceu e se tornou um dos maiores guitarristas de rock do Brasil e até do mundo. Só que se tornou conhecido por um apelido que para uns é “nome de cachorro”: ele mesmo, Lulu Santos, que inclusive já marcou presença em outro artigo desta série. Lulu nem se importa muito com as brincadeiras sobre seu apelido/nome artístico ser “nome de cachorro”, tendo até dado a um de seus CDs o título Mondo Cane, com um belo canino na capa e tudo. De modo que, para mim, a questão sobre que nome dar ao cão puxa outra: afinal, o que é “nome de cão”?

Sim, em português há os nomes mais comuns e óbvios para cães, como Lulu e Totó. Mas Lulu é também um guitarrista de rock, como já lembramos, além da personagem de quadrinhos amiga do Bolinha e que agora virou adolescente. “Totó” é também nome de um famoso humorista italiano e como os cariocas se referem àquele jogo de futebol de mesa conhecido em São Paulo como “pebolim”. E todas as palavras que conhecemos como “nomes de gente” querem originalmente dizer outra coisa: Adriano significa “da região italiana da Ádria”, Pedro significa “pedra”, Cecília é “cega”, Sandra significa “defensora”, Ayrton é “da cidade de Ayr” (fica na Escócia) e assim por diante. (Sem falar que tudo é possível depois que Frank Zappa, Caetano Veloso e Baby Consuelo/do Brasil agraciaram suas crias humanas com nomes como Moon Unit, Zeca e Krishna Baby).

Por sinal, desde o fim do século passado, cada vez mais estadunidenses dão aos cães nomes humanos como Sam, Lucy, Max ou Molly, o que serve como prova de que o canino é considerado cada vez mais um membro da família, não apenas uma propriedade, bem de consumo ou acessório vivo. (E Leonard Ashley, professor universitário inglês lecionando nos EUA, diz que uma tendência atual é dar aos cães nomes no idioma de origem da raça; “se for uma raça alemã, as pessoas querem dar um nome alemão, como se o cachorro soubesse falar alemão.”)

Para nomear nossos caninos é possível – e até necessário -ser mais criativo e respeitoso que a Jamie Kelly da série de livros Querido Diário Otário, que deu a seu Beagle o nome de Fedido (no original Stinker, o que me fez lembrar do produtor de discos Quincy Jones, que colocou o apelido Smelly, também “fedido”, em um de seus clientes, mais conhecido por seu verdadeiro nome, Michael Jackson).

Também já vai longe o Brasil do século 19 examinado pelo historiador Gilberto Freyre em seu livro Sobrados e Mucamas, quando os cães recebiam nomes como Rompe-Ferro, Nero e também Vulcão, Negrão, Gavião, Trovão, Furacão, “como se os nomes em ‘ão’ lhes aumentassem o prestígio de animais ferozes, capazes de estraçalhar estranhos ou intrusos”.

Lembrei-me também de uma nota publicada na revista Claudia nos anos 70, sobre dar aos Pequineses nomes chineses com significados como “menino comportado” ou “minha senhora”. Por falar em revistas, escrevi na Cães & Cia. sobre o costume nordestino de se dar aos cães nomes de peixes e assemelhados, numa versão agreste do espírito irônico brasileiro e consolo pela escassez de água na região, lembrado até em um sucesso do grande Luiz Gonzaga, “Samarica Parteira”, autoria de Zé Dantas: “Não sei por que cachorro de ‘pobe’ tem sempre nome de peixe: é ‘Cruvina’, ‘Taíra’, Piaba, ‘Matrinxã’, Baleia [sic], Piranha. Ah! ‘Maguinho’, mas ‘caçadozim’ como o diabo! Cachorro de rico é gooordo, ‘num’ caça nada, rabo grosso! [...] Agora, o nome é bonito: é White, Flike, Rex, Whisky, Jumm…”

Enfim, não é preciso ser historiador, nem saber falar chinês ou alemão, para dar aos caninos nomes que reflitam sua personalidade (e também a do dono) de forma prática, positiva, criativa e respeitosa. Vamos, então, dar nome aos cães – e, por que não, apelidos também.

Nome humano é bom, mas…

Já estamos no século 21 e ainda há pessoas que consideram “cachorro” um xingamento e se ofendem quando são apresentadas a um xará canino, de modo que há quem recomende evitar dar ao cão nomes de parentes ou amigos, para evitar constrangimentos. Um caso real aconteceu com um colega de trabalho do pai de um amigo meu, que tinha um cão de grande porte e lhe deu o sobrenome do patrão, Irdafli (a história é verídica, obviamente mudei o sobrenome). Um belo dia, este colega convidou o patrão para jantar em casa. Quando o chefe chegou, o cão não teve dúvida em recebê-lo amigavelmente, pulando-lhe em cima e encostando-o na parece. Imaginem o esforço do anfitrião para reprimir o comando “Sai, Irdafli!” Pena que o pai de meu amigo já faleceu e este não se lembra de como terminou este encontro histórico dos Irdaflis humano e canino e como o dono do cão se livrou desta mistura de saia justa e coleira apertada.

Nunca é demais lembrar que, mesmo tendo nome humano, o canino não entende nenhum idioma humano. Pessoas podem ter nomes como Hermengarda, Franciely, Austregésilo ou Protógenes sem muito problema, mas para nossos amigos peludos o ideal é não passar de três sílabas – mas uma só é pouco demais, pois soa mais como ordem de comando. Quando muito, um nome de quatro sílabas com a tônica nas primeiras, como Penélope, a Cocker do jornalista e produtor André “Pomba” Cagni, e da qual já falamos aqui em outra ocasião. “O motivo do nome Penélope é que eu queria um nome feminino não muito comum”, explica Pomba. E realmente o nome caiu bem; afinal, um ser bonito merece um nome bonito, não é? (Não custa lembrar que as possíveis origens do nome Penélope são “uma espécie de pato” ou “bobina de fio para tecelagem”, ambas alusivas à Penélope da mitologia grega que, segundo consta, foi salva da morte em criança por uma revoada de patos e nunca terminava um trabalho de tecelagem, numa tão longa quanto bela história.)

Mudanças e alcunhas

Num artigo anterior comentei que, ao contrário do mito popular, caninos velhos também podem aprender coisas novas. Muitas vezes, estas coisas novas incluem um novo nome. O que faz lembrar um mito correlato, citado por Sandra Régia, da Lord Cão: “Primeiro mito: Um cão depois de adulto não acostuma mais com outro nome’. Isso é falso, pode mudar o nome sim, principalmente se o nome anterior está associado a sofrimento numa família que o maltratava.” Tenho em casa um bom exemplo: Mila, uma vira-latinha adotada por pura arte do destino. Num belo dia, um Monza simplesmente passou pelo quarteirão onde moro, parou, abriram a porta, puseram a cadela na rua e tchau. Foi imediatamente adotada pelo quarteirão, uns dando comida e água, outros caixinha e cobertor, e meu filho e a mãe o acabaram adotando. Ambos escolheram instantaneamente o nome Mila para esta minha nova “neta”. Nenhum dos dois se lembra qual exatamente teve a ideia de lhe dar tal nome, mas certamente nem seria bom saber o nome anterior dela. Casa nova, nome novo, vida nova – e melhor.

“Segundo mito: o cão não entende apelidos. Isso também é falso, é possível escolher um nome e vários apelidos para o cão”, diz Sandra Régia. “Se todos forem usados com frequência, o cão aprende a atender a todos eles. Só não vale exagerar e usar 20 apelidos, hehe! Mas um nome e uns três apelidos dão bem demais.” Nossa amiga Mila também atende por Miloca, e seu “irmão” Fredy, belo genérico de Dálmata, gosta de ser chamado de Fredão por mim (nada a ver com as feras de Gilberto Freyre), Frederico pela faxineira e Frederêncio pela “mãe”. E eles gostam quando incorporo Ernesto Lecuona e canto para eles aquele bolerão mais ou menos assim: “Sempre no meu coração/Dona Mila e Seu Fredão…”

Arteiros e artistas

É normal crianças humanas normalmente chamadas por apelidos entenderem que a coisa é séria quando de repente alguém as chama pelos verdadeiros nomes, muitas vezes com sobrenome e tudo. Mas evite chamar seu “filho” ou “neto” canino pelo nome com raiva ou rispidez, para que ele não pense que seu nome está sendo usado como xingamento nem o associe a algo desagradável; ele precisa atender prazerosamente ao ser chamado pelo nome.

Se teu cão for de raça pura e portanto tiver linhagem, esta deverá ser registrada no Kennel Club do Estado natal do bicho ou clube especializado na raça(consulte a página da Confederação Brasileira de Cinofilia no ww2.cbkc.org. Lá, os formulários permitem registrar nomes com até 40 toques, bem mais generosos que o American Kennel Club, associação correspondente dos EUA, cujo limite é 28 toques.

E se, além de ser de raça, seu peludo quiser ser o Tony Ramos da família, demonstrando vocação para artista profissional, e for participar de exposições (“dog shows”), deverá ser registrado na Associação Cinológica Brasileira, além de receber um belo microchip (obrigatório desde 2004). Ele poderá então ter um nome curto para o dia-a-dia e “sobrenome artístico” com o qual será divulgado. Dois exemplos recentes são o casal de Dobermanns premiados de Campos de Goytacazes (no Estado do Rio de Janeiro) Rod Dobe’s Dorothy (com apóstrofe e tudo) e seu “marido” Double Dee Fire Bolt.

O nome que um dono dá a seu cão reflete não só o jeito do próprio cão, mas também do dono. Por exemplo, Walt Disney é padrinho de muitos caninos por aí, a julgar por uma pesquisa segundo a qual, nos últimos anos, O Rei Leão inspirou dezessete pequenos grandes donos a batizarem seus cães de Simba só na cidade de São Francisco, na Califórnia. Idem Glória Perez, com tantas candelas charmosas chamadas Jade devido ao sucesso da telenovela O Clone. (Por sinal, muitos homens demonstram maior tendência a dar aos cães nomes provocativos ou negativos que mulheres). Enfim, na hora de dar nome a nossos amigos peludos, a criatividade, o carinho e o respeito são o limite – e vale a pena o esforço para manter o bom nome do prazer de ter cães.

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One Response to Que nome darei a meu cão?

  1. dave disse:

    esta pagina é muito criativa falar de conhecimentos de caes

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